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Agronomia no Ceará: 98 Anos

30 de março de 2016

Reproduzimos artigo do Prof. Luiz Antônio Maciel de Paula,Diretor do Centro de Ciências Agrárias.

Marchas e Contramarchas da Agronomia

Em 30 de março de 1918, quando a Escola de Agronomia nasceu, a agropecuária e o extrativismo predominavam na economia do Ceará. Naquela época, a formação teórica e prática era voltada para enfrentar a questão agrícola.
A Escola surgiu no período em que a ação institucional contra as secas se tornava mais consistente. Com a criação do Dnocs, em 1909, eram necessários Engenheiros Agrônomos para associarem-se a geólogos e naturalistas, dentre outros profissionais, visando à abertura de estradas, construção de barragens e preparação de campos.

Com a criação da Universidade Federal do Ceará, a Escola foi incorporada e passou a atuar em um contexto mais amplo de desenvolvimento regional, promovendo parcerias com universidades dos Estados Unidos que viriam a reforçar o modelo difusionista nos anos 1960.
Dos anos de 1960 até meados de 1980, aprofundou-se a fase de modernização conservadora no Brasil, na qual os governos militares investiram no setor agrícola para dotá-lo de capacidade produtiva necessária para se inserir no mercado internacional. O então Centro de Ciências Agrárias participou desse processo, associando-se a outras instituições que se pautaram pela novidade da Revolução Verde para fortalecer a modernização da agricultura e ampliar o modelo agroexportador.
Com o fim do regime militar, surgiu a abertura para ações de formação profissional com capacidade de atuar de maneira mais crítica e criativa na agropecuária e no desenvolvimento rural.
Os recuos na política agrária amorteceram as mudanças prometidas. Muitas das expectativas foram sendo frustradas e o serviço público agrícola enfrentou o desmonte típico da época. Na verdade, o Estado não priorizou um programa de desenvolvimento rural que envolvesse o apoio à agricultura familiar, a modernização da agricultura por meio da irrigação e de tecnologias apropriadas ao semiárido e de um amplo programa de educação do campo. Portanto, não foram criadas condições para superar os problemas sociais no meio rural, particularmente aqueles produzidos em decorrência das secas.
Na Universidade, por sua vez, o Curso de Agronomia enfrentava as questões da defasagem curricular e das avaliações negativas no “Provão”. O mais cômodo era colocar a culpa das notas baixas nos alunos. Não havia a percepção de que o problema teria outra magnitude. As mudanças de paradigmas no setor rural não eram consideradas como possíveis causas. Até que ponto o curso estaria acompanhando as reformas do Estado, do setor privado e do terceiro setor?
Há de se considerar que as universidades públicas federais também passaram pelas agruras do neoliberalismo e experimentaram um verdadeiro desmonte, resultado da visão equivocada na qual o Estado deveria também ser mínimo no ensino superior.
A década de 1990 também presenciou o desmonte da política agrária em decorrência do modelo neoliberal que extinguiu ou depreciou órgãos públicos, sucateando as universidades e desmoralizando seus servidores.
Desde a última década vem ocorrendo a retomada do papel das instituições públicas na educação superior e no desenvolvimento do país. Nesse contexto, o Centro de Ciências Agrárias se juntou a outras instituições no esforço de instituir uma formação profissional criativa e transformadora.
Em 2008, foi realizada a reforma do Projeto Pedagógico do Curso (PPC) de Agronomia e está em curso a sua primeira atualização. Não se trata de mudança na “grade curricular”, como tradicionalmente era feita. O que se propõe é uma mudança na concepção do processo de ensino-aprendizagem que envolve novas abordagens, novos métodos e novas tecnologias de ensino.
No dia em que a Agronomia do Ceará completa 98 anos, e se prepara para o seu centenário, é nossa missão celebrar, mas também lutar por uma reforma que incorpore os saberes necessários à educação diante da complexidade da sociedade contemporânea.